Cá por dentro só te vejo, e oiço, e desejo sentir-te pele com pele, da boca, de todo o corpo vivo... A despedida é sempre uma pequena morte; a aguada nos meus olhos que fica, e nunca no céu da aguarela que quereria pintar, como um presente definitivo; uma marca de amor... Vejo nesta mesa as ondulantes sombras destas árvores e desta vida de fim de tarde, enquanto um oboé me vai torturando com purezas demasiado desanuviadas, que não consigo conter em mim, nem em nada do que existe na minha vida; só o inalcançável me parece corresponder às imagens que esse oboé me faz chegar pelo ar... Tu és um acorde irrepetível que me chegou ao cérebro e vibrou em todas as minhas fibras musculares, sem atritos... Esse som que te corresponde ecoa cá dentro mais tempo que o regular... É(s) a minha tortura mais íntima e secular...
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do filme "Paris Je T'aime"
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"De tanto se comportar como um homem apaixonado, transformou-se de novo num homem apaixonado." "Há alturas em que a vida requer uma mudança, uma transição, como as estações. A nossa Primavera foi magnífica, mas o Verão já passou. Perdemos o Outono, e agora, de repente, está frio. Tão frio, que tudo... tudo começa a ficar gelado... O nosso amor adormeceu e a neve apanhou-o desprevenido. Mas se adormeces sobre a neve, não sentes chegar a morte. Cuida de ti."
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O ter-te longe, é uma sala com cores pálidas, numa tarde adormecida, com sombras de árvores do jardim nas paredes brancas desejosas de vozes rindo entre elas...; É um piano negligenciado, e um gato que se deixa apanhar na moleza dessas tardes solitárias... É um andar por um jardim plantando flores como marcadores das estações que vão ocorrendo, numa tentativa de nos situarmos nesse tempo, enquanto dentro só vivemos no eterno Outono das últimas energias solares antes de tudo repousar em gelo... mas é Outono, de vermelhos apaixonados, e resquícios de calor nos bancos de madeira ensolarados... A esperança não tem cor das estações, porque nenhuma estação se reveste apenas de preto ou branco, e o tudo ou nada, nem parece existir no real... Guardo então apenas o Outono essencial... O fôlego último das árvores, e os últimos brilhos nas águas dos lagos movimentados das aves prontas a partir... a despedida que não se podia adiar... a roda... o samsara ... Guardei esta estação do ano, porque nel...
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Eu não sei que mar, lençol de água, ou nuvem sou... Mas sei que um fogo maior me pode volatilizar... Dispersar, desprender-me de onde era, E tornar-me parte de uma flor, um animal, Ou enclausurar-me numa gruta profunda, Água silenciosa, torturada na escuridão, Água sem função fecundante... Água presa, excomungada, condenada À iluminação esparsa, que a terra permitiu Em momentos em que tremeu, e se desfez em tal parte. Eu, como água, imploro-te: deixa-me completar muitos ciclos. O Sol que te alimenta não se extinguirá já... Mas a água, pura, virgem, sincera, padrão da densidade, Essa não se fará igual... Poderá a tua tortura cessar?
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Ao fim da tarde é que o mar é meu. Nas horas mais quentes do dia, O mar desafia... É confronto do corpo com o branco espumoso, e o da areia pelo Sol dado. Ao fim da tarde a água não parece tão vitoriosa quando reclama as suas transparências ao Sol... Diria que é uma água sonolenta porém lúcida... Nas horas mais quentes a água é um convite declarado... Ao entardecer seduz os seus amantes para a dança e até parece não lhes apagar o rasto na areia, para os devolver já saciados em pouca luz, quando ainda sussura frescuras baixas ou profundas, conforme o amante seja a gaivota, ou um diletante sensacional. Ao fim da tarde é que o mar é meu!, e o azul mais negro e violeta conjectura as preces que eu faço de me diluir nessa perpétua massa em movimento... (um desejo de esquecimento) Ao fim da tarde é que eu sou mar: estranho ser físico, em estado cardinal; reflexos de estrelas, ou de astros brancos, devaneios de poetas vencidos, angústias por revelar, e azul, azul, azul, azul. Seria loucura pen...
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É tempo de construir uma nova fortaleza. Terá um fosso, preenchido com água do mar, em alturas variáveis, conforme os ciclos das marés - a lua terá portanto influência... Não haverá uma forma definida de fortaleza - quadrada, circular. Será sim conforme o espaço conquistado à terra. Das muralhas para dentro grandes terreiros solares serão furados por três ou quatro torres finas e altas, com uma simples janela cada uma. Terminarão num vértice bem pontiagudo - o ponto final da ascenção. Dessas altas janelas, gaze esvoaça branca, ao vento marítimo nas tardes violeta. Eu, de braços cruzados apoiado nas muralhas, fixo a linha horizontal no limite, e vejo a água escoar-se até lá... e sinto que o que vejo é a esperança a dissipar-se. Atrás de mim, já intensa e amarelada, a lua anuncia-se e autoriza os rituais, nas matas fecundas dos eternos "ais"... Sobram-me desses terreiros ao fim da tarde, as sonatas dedicadas ao Amor desvanecido feito fumo e eu... convoco a coruja soturna, branc...